domingo, dezembro 31, 2006

O fim de ano

Acho que nunca entendi o mecanismo da verdade. E muitos outros, por horas e horas, vêm discutindo acerca de fenômenos nunca dantes vistos. Como podem ter tanta certeza de tanta coisa? Eu sou tão descrente que mal acredito que o ano se acaba mais uma vez e tudo o que fiz foi estar errado em local e hora...

segunda-feira, dezembro 25, 2006

Mensagem subliminar em aeroporto

Em outras palavras, brasileiro é:

- Cachaceiro
- Caipira
- Jogador de futebol
- Consumidor de drogas

hehehe que bela mensagem conterrânea dos nossos aeroportos =]

sexta-feira, dezembro 22, 2006

Porque faço versos

Faço versos porque sou silencioso
e de vez em quando minha voz cala...
nesta hora é meu coração quem fala
e sou por ele maior atencioso.

domingo, dezembro 17, 2006

Sobre o meu afastamento do estado inconsciente...

Tenho andado distante de minha inconsciência e, se por um lado, isso faz romper a tênue barreira que me mantém alheio ao mundo real, por outro venho sentindo-me, cada vez mais, particularmente obrigado, como se me houvessem pregado, sem questionamento, uma daquelas algemas amarradas a uma bola de ferro com a qual mantêm um prisioneiro incumbido de uma tarefa, sem saber exatamente os fins. Talvez vós perguntareis o motivo...eu mesmo acho que passo por um período de transfiguração e ele não poderia ser de grande valia se doloroso não fosse. Tenho-me arreliado facilmente, [a]pr[e]endido em distintas situações e, agora, lendo Pessoa em alguns de seus aforismas, pude perceber a grande volta orbital que estou circundando em mim mesmo. Considero-me poeta de profissão. Também faço matemática, também gosto de línguas e música, mas no interior, sou artista. A cada segundo meu prélio está em não saber como lidar com isso e, desta forma, venho relegando aquilo que deveria manter em primazia, enquanto, como não pudesse de outra forma, venho observando pessoas com suas posturas resolutas e distintas que eu, Marcelo, não canso de admirar. Eis que serão advogados, médicos, legistas...exímios ou não em função. Eu serei este que vos escreve, talvez um pouco mais arguto ou amadurecido, porém sem alcunhas. E, como o pródigo filho (não como aquele que esbanja), retornar em abertos braços para o estado de consciência responsável no qual, dentro de um contexto meramente social estou incluído, é tarefa boa e ruim ao tempo mesmo. Por um lado farei ver em mim aquele epíteto profissional, porém, é como se obter uma alcunha fosse sinônimo de ter resposta pra tudo: isto é afastar-se com veemência do subconsciente. Neste ponto, Platão estava certo: as idéias são inatas do ser e não provêm de observações! Afinal, sabemos o que é intrínseco e utilizamos apenas o que nos já está fixado e previamente enclausurado...

sexta-feira, dezembro 15, 2006

O deplorar que se fez em mim, em pleno teatro

Hoje fui assistir a um concerto das Bachianas Brasileiras...não, não sou mais o mesmo! Não pude me conter ao ver entrarem todos aqueles músicos de fraque, ou engomados num terno que lhes servia de cobertura para o grande público: chorei. Por me sentir distribuído entre eles, por fazer parte daquela concisa massa e ao mesmo tempo estar ali, sentado na platéia...chorei. Porque não conseguia traduzir ao certo o mundo de especulações que se criava em minha mente e por saber que eu era todos aqueles pensamentos. Porque não sabia como manipulá-los...porque queria apagá-los e, mais especificamente, por não saber ao certo o que fazer com o abastado conteúdo com o qual me presenteei...chorei! E foi um deplorar às margens, no escuro da cena, obnubilado pelos halos contidos numa explosão de holofotes que se ramificavam em velocidade de luz, que percorria meu rosto e refletia para todos minha tristeza. Não, não sou mais o mesmo!

terça-feira, dezembro 05, 2006

Diálogo a Dois

- Queria dar-te um beijo, mas que trocasse, ao invés de material vulgar como a saliva, algo extremamente novo que representasse muito mais do que simples bactérias permutantes entre a minha e a tua boca. Talvez se beijássemos um o ar do outro, na tentativa de verter tudo de si: seria como uma entrega plena, não achas, afinal, o beijo nada representa se não for um auto-depósito...

- Talvez se beijássemos nossos olhos conseguíssemos imprimir a marca dos lábios na ponta mais sobressalente da alma no corpo físico...por onde o intrínseco escapa, na percepção alheia...

- Quero beijar-te, mas não sei ainda como. Sei que anseio e neste afã situacional venho construindo minha impressão subconsciente: não agüento ser prisioneiro da razão por muito tempo.

- Eu tampouco...

- Mas não parecias assim de intróito...era como se tua alma repudiasse o fato de querer coadunar-se à minha numa concepção conjunta. Aos poucos fui tecendo teus recamos, trazendo à tona uma comunhão imaculada e casta...por acaso te arrependes?

- De maneira alguma! É que nunca dantes fora assim: figura de suprema relevância para outrem. Sempre fora de mim o dono máximo, impresso no acme da minha própria natureza, figura narcísica a manter sempre a boa aparência por única razão egocêntrica; a auto-admiração. E então vejo-me cá, unido aos teus como se a existência agora fizesse completo sentido...

- E faz. A existência nada é sem o sentido. Como um livro é dependente de enredo e de sistemas cognitivos que o façam ser compreendido por demais, a existência só ganha devido status quando passa a ter algo em si que a dê sentido. Isto encontrei em ti, como quem nada procura além de algo a se espelhar...

- Então eu existo para dar sentido à tua existência e vice-versa?

- Em parte, sim. Não unicamente, mas digamos que tudo na vida tem sentidos opostos. O que bate tem necessariamente que rebater: é a Lei de Newton, meu caro! A toda ação corresponde-se uma reação! Ainda não estou certo com relação à parte da mesma intensidade, porém, vamos coagindo, como se a abóbada fosse verdadeira...

- Pois acho de extrema elegância essa lei harmônica na qual o universo se submeteu e, como somos no fundo parte dele, estamos secundariamente submetidos. Agora compreendo o real sentido da troca, ou pelo menos, acho que compreendi.

- Tenha certeza de que qualquer certeza é incerta.

- Isso é um paradoxo!

- A vida, meu anjo, é um paradoxo...

domingo, dezembro 03, 2006

A cidade de Isidora

Quando se avista, à beira oceano, um portal que transparece através de si a linha do horizonte, sabe-se que chegou em Isidora, que, ao contrário de outras cidades, não se projeta em dimensão horizontal, tendo o forasteiro que encontrar o exato ângulo no qual percebê-la. É muito comum, na cidade prisioneira das dimensões, sentir-se intercalado por exíguos habitantes que não se enxergam desferindo golpes no ar, atrelados ao não adequamento de seus próprios atos. Da mesma forma, não existe perspectiva em Isidora, sendo que qualquer desvio angular pode acarretar numa mudança parcial ou até mesmo total do que se vê, por isso não é incomum que alguns forasteiros jamais encontrem o caminho de saída ou mesmo que muitos caiam num abismo achando que se estão dirigindo para um primevo campo onde se desenham flores das mais diversas tonalidades. Em Isidora nunca se sabe ao certo quando é dia ou noite e qualquer tentativa de mapeamento das horas acabam perdidas nalgum ângulo que dificilmente se consegue recuperar e, quando, por algum descuido ou ventura, todas as anotações são trazidas de volta por algum olhar esguelho, o tempo já correu de forma incontrolável, de forma que já não se pode mais distingüir o que é noite e o que é dia novamente. Diz a lenda que, de tempos em tempos, Isidora fica completamente visível, em todas as suas nuances, e só aí pode-se perceber, mesmo que num átimo, que a cidade não passa de um emaranhado de pessoas que se perderam no vazio de si mesmas...